Luiz Augusto L. da Silva *
Sem ineditismos. Não iremos escrever nada novo. Todo mundo com um pingo de sã consciência já tem conhecimento. Mas a maioria finge não estar vendo nada.
E o final de mais um ano enseja algumas reflexões a respeito. A respeito do comportamento geral do modelo de sociedade vigente na civilização construída pelo Homo “sapiens“. Uma civilização impregnada de consumismo fútil, essencialmente porque depende dele para seguir existindo. Uma civilização corroída pelo egoísmo, idólatra fanática de uma invenção de merda chamada dinheiro, com a qual sonham legiões delirantes de milhões de apostadores compulsivos em loterias bilionárias. Uma civilização intolerante que transpira hipocrisia, mas que a todo momento procura travestir-se de autêntica, além de “humana”.
Uma sociedade que cultiva um dia de Natal, em lugar de cultivar 365 dias de Natal. Uma sociedade que, a cada ano, vibra enlouquecida, alienada e entorpecida à meia noite de 31 de Dezembro, promovendo algazarras e saudando com shows pirotécnicos mirabolantes o novo ano que chega, ignorando a arbitrariedade do calendário estabelecido, e que o Ano Novo muito provavelmente será pior que o ano recém expirado. Ao mesmo tempo em que protagoniza tragédias nas rodovias e pubs, onde indivíduos perdem a vida feito moscas, e aqueles que sobrevivem amargam tranqueiras quilométricas para conseguir retornar aos seus lares, uma vez findo o feriado prolongado.
Uma civilização que, cada vez mais, se norteia por frivolidades, por uma ditadura impositiva de comportamentos e ideias, exaltando tendências irracionais de moda e de hábitos de índole duvidosa. Se você não aderir às “novidades” que viralizam nas redes sociais, se não digitar bobagens e caretinhas debiloides diariamente em seu smartphone, concluindo com “kkkkkkk” compartilhando a seguir com seus amigos, então você será out.
Pessimismo?
Não. Realismo. Uma análise fria, científica e objetiva mostra que não existem motivos para comemorações. Muito pelo contrário. Há razões de sobra para nos preocuparmos. Como já salientamos noutras oportunidades, o abismo se encontra bem diante de nós.
O “fim do mundo”, entendido como um grande colapso do modelo sócio-econômico capitalista, acompanhado de uma crise ambiental aguda, é iminente. Assim como a tão temida Terceira (e última) Guerra Mundial. As providências para evitar “Eventos X” endógenos à nossa civilização tecnológica são pífias, justamente porque, para serem efetivas e eficazes, necessitariam que puséssemos de lado nossos “valores” mais sagrados. Da noite para o dia. Não faremos isso, é claro. Ainda mais em um curtíssimo intervalo de tempo. Nossa falta de educação nos impede disso, e nos levará a morrer abraçados com eles. E a nossos tabus, e preconceitos. Preconceitos raciais. Preconceitos religiosos. Preconceitos políticos. Preconceitos de gênero. Preconceitos de ideias. Todos ridículos. Ideias ridículas como “azul é de menino, e rosa, de menina.“
Lixo e Luxo
Apenas uma vogal diferencia as duas palavras. De um lado, temos o lixo, entendido aqui no sentido mais amplo, indo muito além dos resíduos que são descartados todo dia aos milhões de toneladas em razão dos nossos hábitos insanos. Nos referimos ao lixo da falta de educação em geral, da falta de senso crítico e de discernimento verdadeiramente racional. O lixo do descaso para com o próximo e para com a natureza. O lixo do poderio militar imperialista, do armamentismo, das guerras e dos conflitos. O lixo do patriotismo e do culto territorialista que estabelece fronteiras. O lixo da ignorância e o lixo da falta de fraternidade. O lixo do nosso baixíssimo nível ético-moral. O lixo da escravidão. E o lixo dos vícios.
Do outro, o luxo. O requinte exagerado e supérfluo, o desfile do excesso de bens móveis e imóveis, da corrida absurda pelo “carro do ano”, dos exageros gastronômicos, comilanças e bebedeiras, da ostentação em geral, do querer aparecer, e de ter e de ser mais do que os outros. O luxo que, a todo instante, enfatiza diferenças, algumas reais e cruéis, enquanto outras, tolas e imaginárias. Em detrimento da opção de viver com simplicidade e conforto. Sem ter mais, nem menos. E sem ser mais, nem menos. Apenas o necessário para ser feliz.
Futuro
Haverá um? Para a espécie humana, vista como espécie animal, talvez sim. Não a eternidade, óbvio. Mas, talvez, mais algumas dezenas, quiçá algumas centenas de milhares de anos. Um milhão de anos, talvez? Ou talvez não, caso uma inteligência artificial muito avançada resolva nos exterminar por completo, logo ali, depois da esquina, num holocausto mil vezes mais horrendo que aquele da Segunda Guerra Mundial, isto se não nos exterminarmos antes.
Para o modelo atual de civilização tecnológica, quase certamente não. Não surpreende a aparente ausência de seres extraterrestres na Terra hoje em dia, mesmo que a idade da nossa galáxia doméstica já supere a casa de uma dezena de bilhões de anos. A leitura mais correta do Princípio da Humildade talvez seja que, em geral, sociedades inteligentes auto-conscientes tecnológicas, além de raras no Universo, possuem reduzida expectativa de longevidade, por causa da sua extrema complexidade, a qual acarreta em sua igualmente extrema fragilidade intrínseca, abreviando as chances de uma sobrevivência bem sucedida.
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* Astrônomo, presidente do conselho curador da Rede Omega Centauri para o Aprimoramento da Educação Científica.
www.luizaugustoldasilva.com
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