





ATMOSFERA (29)
Momentos de um Observador da Natureza
NOITE DE TERROR
Luiz Augusto L. da Silva*
2026, 6 para 7 de Agosto. Um quadro de ciclogênese explosiva configurava-se na região da foz do Rio da Prata. Durante o dia, tempestades severas açoitaram o território uruguaio sem dó nem piedade, estruturando uma squall line que, ao final do período, invadiu o Rio Grande do Sul, varrendo o estado inteiro a partir da fronteira sul, do oeste, da Campanha, e das Missões, atingindo depois todas as demais regiões, produzindo um tornado na área rural do município de Pedro Osório, apenas alguns dias depois daquele outro em Giruá.
Aqui em Tranquility Base, cerca de 40 quilômetros ao norte de Porto Alegre, o anoitecer foi enganadoramente tranquilo, com o céu semi-encoberto por uma camada alta de cirros, e estratocúmulos na troposfera inferior. Mas as leituras barométricas baixas já sinalizavam o desastre iminente. Findo o crepúsculo, a chegada da escuridão encarregou-se de mudar o cenário. Às 20:15 (horário de Brasília), uma inspeção visual já revelava um assustador arco de tempestades estendendo-se pelo horizonte, desde o sul até o noroeste, com intensa atividade elétrica e trovoadas. Baforadas mornas e úmidas, trazidas por um vento norte agora fraco ainda procuravam resistir ao avanço inexorável da frente fria. Uma típica situação de nível 5.

Em vermelho: a posição da squall line na noite de 6 de Agosto de 2026 sobre o estado do Rio Grande do Sul, pouco antes de atingir a capital do estado e sua região metropolitana. Crédito da imagem: NOAA.
Nível 6!
E então, a tempestade desabou com toda a fúria. Num período curto, compreendido entre às 20:35 e 20:45, rajadas muito violentas de vento, e chuva intensa chicotearam toda a região metropolitana da capital gaúcha, perdurando até ao redor das 21 horas, com um pouco de alívio na intensidade. No aeroporto internacional Salgado Filho mediram-se rajadas de 120 km/h, registros dos mais altos em décadas, enquanto no extremo da zona sul o vento alcançava 132 km/h. Valores típicos de um tornado classe F1, ou de um furacão de categoria 1. Na cidade de Campo Bom, na mesma área da nossa base, o vento chegou a 99 km/h. A energia elétrica se foi. Só voltaria depois de 5 dias… Em meio ao negrume, choveu 13 mm em meia hora, e a pressão atmosférica subiu 6 hectopascais em apenas 10 minutos! Dava para ver a agulha do barômetro se movendo!
Com o amainar da tormenta, sobreveio a bonanza. Exausto, em meio ao escuro, fui para a cama e desabei em um sono profundo. Eram só 21:30. Acordei à meia noite. Não chovia mais, nem ventava. Calmaria total. Mas a pressão caíra 3 hectopascais: perturbador.
Voltei a dormir. Despertei de novo às duas horas da madrugada, com as primeiras rajadas de vento ciclônico, uivando lá fora, as quais, felizmente, por aqui não ultrapassaram os 50 km/h. Às 03:30, a temperatura já caía, e a pressão havia subido 1 hectopascal. Um bom sinal, indicativo do início do afastamento do ciclone bomba. Aguardei insone por algum tempo, até conseguir pregar olho outra vez. O dia amanheceu cinzento, carrancudo, 8/8 de stratocumulus stratiformis opacus, distribuído em várias camadas, desenhando um característico quadro pós-frontal, complementado por rajadas gélidas de vento noroeste e chuviscos esparsos. O inverno voltava a se manifestar com força…
Dura Realidade
Meados de Setembro, 2016: um ciclone bomba se forma sobre a região sul do Brasil. Julho de 2020, em plena pandemia, outro. A cada ano, dezenas de ciclones vêm se formando por aqui. A maioria, extratropicais, mas também alguns anômalos. Lembram-se da tempestade subtropical Yakecan, em Maio de 2023?
Além dos ciclones, microexplosões e tornados também viraram feijão com arroz. E as enchentes, então? Setembro e

O ciclone bomba sobre o Atlântico Sul na manhã do dia 7 de Agosto, com a frente fria associada já alcançando os estados do Paraná, São Paulo, e Rio de Janeiro. Crédito da imagem: NOAA.
Novembro de 2023, e Maio de 2024 ― recorde histórico ― para não mencionar outras, de menor porte.
A estação meteorológica da Rede Omega Centauri em Novo Hamburgo registrou, entre 20 e 28 de Julho deste ano, um acumulado de 310 mm de chuva, mais que o dobro da média mensal normal, em apenas 8 dias, cerca de um quarto de mês!
Granizo e ventos de até 100 km/h ou mais já são rotina. Alertas meteorológicos do INMET são divulgados quase que diariamente. Não passa uma semana sem que pelo menos um deles seja emitido. Amarelos, laranjas, vermelhos.
No Rio Grande do Sul, a população experimenta um estado de permanente “ansiedade climática”, enquanto certos representantes do sistema insistem em declarar as mudanças do tempo como parte da realidade de um “novo normal”…
Aliás ― mencione-se ― revoltante a atitude de uma determinada estação de rádio, que se proclama líder de audiência há muitos anos. No momento da chegada da tempestade na capital gaúcha, não se deu ao trabalho de interromper sua programação normal (leia-se narração do jogo entre Coríntians e Internacional, que acontecia na capital paulista) para transmitir informações relevantes sobre o evento meteorológico extremo que chegava. Revoltante sim, mas compreensível, uma vez que nada melhor que futebol para distrair a atenção social, desviando-a dos problemas cada vez mais graves que a continuidade do sistema capitalista vem trazendo no mundo hoje.
Preparem-se: as coisas só vão piorar. Muito mais ainda. O que vivenciamos até agora é só o começo. A ponta do iceberg. A curto prazo, o super El Niño nos promete ainda muitos dias ― e noites ― de pavor. E a médio e longo prazos o aquecimento global também não vai dar trégua. Diz o velho ditado: quem planta, colhe. O Homo “sapiens” já está colhendo os frutos amargos do cultivo doentio da ganância e da adoração de uma porcaria inventada por ele chamada dinheiro.
Um estudo divulgado em 2023 (Farnsworth, A., et al., Nature Geoscience, 16, 901) aponta que, daqui a 250 Mega-anos, a tectônica de placas e mais o Sol se encarregarão de por fim à vida dos mamíferos neste planeta. Sem escapatória. Um incremento natural de 2.5% na quantidade de radiação solar aliado à formação do próximo supercontinente, que já tem nome ― Pangæa Ultima, ou também Pangæa Proxima ― irão catalizar um efeito estufa devastador, bem antes daquele outro, datado para 1 Giga-ano no futuro, que se encarregará de evaporar os oceanos e esterilizar até a mais resistente das bactérias termofílicas. Indo mais longe ainda, daqui a 5 Giga-anos, a metamorfose do Sol em uma estrela gigante vermelha vai garantir que a Terra não seja nada mais além do que um grão de amendoim torrado.
Muito antes disso, entretanto, o modelo de civilização aberrante construído pelo homem já haverá colapsado. Sem esperanças. Um grande alívio para o planeta, se isso acarretar também no extermínio da mais predadora de todas as espécies animais forjadas pela seleção natural até hoje. Infelizmente, uma coisa não implica na outra. Mas isso já é assunto para outra oportunidade.
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* Luiz Augusto L. da Silva é astrônomo, e desde 1973 mantém um olho no céu e outro na Terra.
20260812






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