

Crônica
MARASMO SOLSTICIAL DE INVERNO
Luiz Augusto L. da Silva*
Ou inferno? Não fosse pelo frio extremo, até poderia ser… Seguindo as recomendações do meu terapeuta, resolvi denominar de marasmo solsticial de inverno (doravante MSI), o período que vai de 01 de Junho até 10 de Julho. São 40 dias dentro do pior período climatológico do ano, o qual compreende o quadrimestre médio, ou seja, os meses de Maio, Junho, Julho e Agosto. Representa o pior do fundo do poço, para aqueles que, como eu, se deprimem com a chegada da estação fria.
E não estou sozinho. Tem muito mais gente passageira nesse mesmo barco. Lareira nenhuma, fondue ou chocolate quente substituem uma boa praia ensolarada, regada a suco de frutas gelado (álcool nem pensar!), sem falar dos petiscos. Principalmente para aquela imensa maioria que carece de calefação, de água quente nas torneiras, de janelas com vidraças duplas, e agasalhos efetivos.
O que caracteriza o MSI? Basicamente as mudanças muito lentas, consequências do movimento anual aparente do Sol ao redor da data do solstício de inverno. Desde o equinócio de Março, o Sol, em seu deslocamento pela linha da eclíptica, vai avançando de oeste para leste contra o fundo das “estrelas fixas”, percorrendo uma a uma as constelações zodiacais, enquanto “cai” também cada vez mais para o norte. Em sucessivos dias, a altura do centro do disco solar no instante da passagem meridiana (meio dia local) vai ficando cada vez menor.
Tomemos o caso da capital gaúcha (latitude 30o Sul). Em Porto Alegre, no equinócio de Março, o Sol culmina a 60o de altura sobre a linha do horizonte, na direção do ponto cardeal norte. No solstício de Junho ― começo do inverno astronômico ― ele alcança sua máxima declinação boreal: cerca de 23.5 graus. A altura do centro do disco solar nesse dia durante a passagem meridiana é de tão somente 36.5 graus.
A componente norte-sul da velocidade angular do Sol é máxima nos equinócios, e se anula nos solstícios. Isso significa que, nas imediações do equinócio de outono, o Sol está caindo bem rápido para o norte e, a cada dia que passa, vai alentecendo esse movimento, até zerá-lo e invertê-lo na data do solstício de Junho. Essa inversão se dá de forma lenta, desesperadoramente lenta.
Se não, vejamos: de acordo com a edição 2026 do Anuário Astronômico Catarinense, excelente trabalho de autoria de Alexandre Amorim (compre na loja online: https://loja.uiclap.com/titulo/ua125376), neste ano o equinócio de outono aconteceu no dia 20 de Março às 11:46, horário de Brasília, instante quando o centro do disco solar cruzou a linha do equador celeste pela primeira vez no ano, indo do sul para o norte. Ali, em 24 horas, a declinação solar incrementou-se em cerca de 0.5o, ou 30′, aproximadamente um diâmetro solar aparente. O solstício de inverno verificou-se em 21 de Junho, às 05:24. A variação da declinação solar em 24 horas foi de apenas meio minuto de arco (0.5′), ou seja, 1/120 de grau!
Considerando todo o período compreendido pelo MSI, a declinação do Sol foi de +22o02’36” (no dia 01 de Junho) , alcançou +23o26’20” no dia do solstício, e retornou para +22o14’28” (no dia 10 de Julho), uma variação de cerca de 3 graus, mas uma variação líquida de apenas 11’52” em quarenta dias!…
Não é a toa que a palavra “solstício”, proveniente do latim, significa “sol parado”… No sentido do movimento norte-sul, bem entendido, pois, no sentido oeste-leste, o Astro-Rei continua sempre avançando cerca de um grau por dia ao longo da linha da eclíptica, durante o MSI um pouquinho mais devagar ― é verdade ― em virtude de a Terra passar pelo afélio (ponto mais distante do Sol) em 06 de Julho, às 14 horas.
É durante o outono que diversas mudanças sazonais se tornam mais aparentes: além de ir para o norte, o Sol nasce mais tarde e se põe mais cedo, o fotoperíodo (intervalo de tempo entre o nascer e o ocaso solar) encolhe, as noites se alongam, e a insolação se reduz, devido ao ângulo de incidência mais oblíquo dos raios solares em relação ao solo. Quando começa o MSI, inicia também o inverno meteorológico (trimestre formado pelos meses de Junho, Julho, e Agosto). Em Porto Alegre, as temperaturas despencam, frentes frias e ciclones extratropicais tornam-se mais frequentes, trazendo mais chuva e incursões de massas de ar polar pós-frontais cada vez mais agressivas. A nebulosidade aumenta, e a quantidade de dias cinzentos com nevoeiros persistentes também. O coquetel pró-depressão chega com tudo…
A inversão de todas essas tendências custa para acontecer, como já foi dito. O Sol se põe mais cedo (às 17:31 em Porto Alegre) entre o dias 3 e 16 de Junho, duas semanas angustiantes. Nasce mais tarde (07:20 na capital gaúcha) entre 29 de Junho e 04 de Julho.
Ultrapassado o solstício, o Sol adentra o icônico retângulo formado pelas estrelas Gamma e Mu Geminorum, de um lado, e Castor e Pollux do outro, singrando por uma linha aproximadamente diagonal, até sair dele em 11 de Julho, quando “atropela” Delta Geminorum, antes de seguir na direção do vazio da constelação do Caranguejo.
A temporada das noites intermináveis e dos dias frustrantemente curtos se estabelece e dura para sempre. Dia 01 de Junho, o fotoperíodo é de apenas 10 horas e 21 minutos, e a noite dura 13 horas e 39 minutos. Na saideira do MSI, aos 10 de Julho, o dia ainda dura só 10 horas e 20 minutos, enquanto a noite, 13 horas e 40 minutos, insignificantes 6 minutos a menos que na data do solstício. Um observador atento (e provavelmente também um deprimido desesperado…) já irá notar ― com indisfarçável contentamento ― que está anoitecendo um pouquinho mais tarde, cerca de 10 minutos, mas quem madruga ainda não percebe que está clareando mais cedo, afinal o raiar do dia só se antecipou em um minuto…
As coisas só começam a mudar mais rápido mesmo quando entra Agosto. Ali, entre o primeiro e o último dia do mês, o Sol “levanta-se” de maneira notável, passando da declinação +18o para +08o, um grau a cada três dias, num pulo sensacional de 10 graus ou 20 diâmetros solares! Agosto é o oposto de Fevereiro. Se, na segunda metade de Julho, a natureza tira o pé do pedal de freio, em Agosto ela pisa no acelerador. Muito embora as agruras meteorológicas invernais frequentemente ainda perdurem de forma particularmente cruel, a insolação já é bem maior. Quando aparece, o Sol brilha visivelmente mais forte, não sendo mais aquele fraco e amarelinho, que raramente se mostrava durante a vigência do MSI. Já dá para enxergar a luz no fim do túnel sem a necessidade de ter que acender uma vela.
Sei que existem lugares muito piores, onde o Sol nem mesmo chega a nascer, nas imediações do solstício de inverno. Imagine estar em local onde, ao redor das 11 horas da manhã, o dia recém começa a clarear. Vem e passa o meio dia, o Sol não nasce, e então principia a escurecer. À uma hora da tarde, já é noite fechada…
Como astrônomo, eu deveria adorar as noites muito longas. Se fossem estreladas… Augusto Damineli Neto, professor do Instituto de Astronomia e Geofísica da USP, deleita-se com as noites compridas e geladas do inverno. Quando cumpria turnos de observação no Laboratório Nacional de Astrofísica, em Brasópolis, MG, para observar estrelas brilhantes, contaram-me certa vez que iniciava a medir às 4 horas da tarde, com o Sol ainda acima do horizonte, indo até depois das 8 horas da manhã do dia seguinte! Muita gente, mesmo não sendo cientista, também curte o inverno. Tudo bem. Não é nenhum defeito. Mas não os invejo. Apenas não consigo ser como eles.
Não importa. Inspirando-me numa dupla famosa de músicos gaúchos, termino dizendo: deu pra ti, baixo astral, vou pra João Pessoa, tchau!
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* Luiz Augusto L. da Silva estuda astronomia desde 1973. Em 2026 está suportando seu inverno austral de número 65…
(www.luizaugustoldasilva.com)
20260812





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