Curiosidades

Trânsitos planetários e eclipses solares vistos de Marte

Luiz Augusto L. da Silva*

Um trânsito é a passagem de algum planeta defronte ao Sol. Geralmente consideramos o caso do nosso planeta, a Terra, a partir do qual esporadicamente podemos assistir a trânsitos dos planetas interiores, ou seja, Mercúrio ou Vênus. Quando um deles acha-se próximo a um dos nodos orbitais e, quase ao mesmo tempo, em conjunção inferior, é possível observar durante algumas horas um ponto negro cruzando lentamente em frente ao disco solar. Ocorrem 13 ou 14 trânsitos de Mercúrio a cada século, separados por intervalos de 3.5, 7, 9.5 ou 13 anos. O último até agora aconteceu em 11 de Novembro de 2019. O próximo será em 13 de Novembro de 2032. Eles em geral acontecem em Maio, ou em Novembro. Já os trânsitos de Vênus são bem mais raros, acontecendo em pares separados por 8 anos, a intervalos de 105 ou 121 anos. Os últimos aconteceram em 08 de Junho de 2004, e em 05 de Junho de 2012. Os próximos serão em 10 de Dezembro de 2117, e em 8 de Dezembro de 2125. Como se pode ver, um período de recorrência superior a um século.

Na Oficina de Astronomia® número 485, disponível no canal da Rede Omega Centauri no YouTube, e também no livro digital Meu Universo, publicação da mesma Rede, abordamos a questão dos trânsitos duplos, ou seja, simultâneos de Mercúrio e Vênus em frente ao Sol, mostrando que eles estão entre os fenômenos astronômicos mais raros que acontecem na natureza: os próximos serão somente em 15 de Março de 69163, e em 7 de Abril de 224504!

Outros planetas

Em princípio, trânsitos planetários defronte ao Sol podem ser vistos a partir de qualquer planeta do sistema solar, exceto Mercúrio [a existência do planeta intramercurial informalmente denominado Vulcano, proposto em 1859 pelo astrônomo francês Urbain Le Verrier (1811 ― 1877) nunca foi confirmada…]. A partir de um planeta qualquer, todos aqueles cujas órbitas estejam situadas dentro da órbita do planeta considerado serão, em princípio, candidatos a transitar o Sol, de vez em quando.

Marte

No caso do planeta Marte, os planetas interiores são Mercúrio, Vênus, e mais o sistema Terra-Lua. No planeta vermelho, trânsitos de Mercúrio acontecem várias vezes a cada década (cerca de duas vezes mais frequentes que na Terra). Em 03 de Junho de 2014, o rover Curiosity, da NASA, registrou um trânsito de Mercúrio defronte ao Sol, visto diretamente a partir da superfície marciana (ver a figura 1). Foi a primeira vez que um trânsito planetário foi observado desde outro planeta que não a Terra!

Fig. 1 – O trânsito de Mercúrio em frente ao Sol, visto desde Marte em 3 de Junho de 2014. Crédito da imagem: NASA/JPL/Universe Today.

Os trânsitos de Vênus são mais raros, separados entre si por intervalos de vários anos, ou mesmo décadas. O próximo será em 19 de Agosto de 2030.

Os trânsitos do nosso planeta são muito interessantes, pois na realidade são sempre duplos, ou seja, é possível ver dois pontos negros projetados sobre a superfície solar: a Terra propriamente dita, e mais a Lua, pouco a sua frente, ou seguindo pouco atrás dela. Em Marte, eles obedecem a um ciclo de 284 anos, acontecendo a intervalos de 25.5, 79, e 100.5 anos. O último até agora aconteceu em 11 de Maio de 1984. O próximo será em 10 de Novembro de 2084.

Eclipses Solares

Marte possui dois pequenos satélites, Phobos e Deimos, prováveis asteroides capturados. Ambos possuem formatos irregulares. Visto da superfície marciana, Phobos apresenta um diâmetro angular médio variando entre 486 e 776 segundos de arco, por causa do perfil irregular em formato de batata (27 x 22 x 18 km) e da grande proximidade à superfície do planeta (cerca de 6000 km), enquanto Deimos é menor, com 127 segundos de arco em média. Uma vez que Deimos é aproximadamente um elipsoide tri-axial com dimensões de 15 x 12 x 11 km, seu diâmetro aparente pode variar entre 61″ e 155″.

Já o diâmetro angular médio do disco solar visto de Marte é de 0.35 graus, um pouco menor que na Terra (0.5o), por Marte se achar mais distante do Astro-Rei.

Disso tudo se pode concluir que Marte nunca pode observar um eclipse total do Sol. Eclipses anulares são produzidos por Phobos (ver figura 2), mas são sempre de curta duração, entre 30 e 40 segundos.

No caso de Deimos, o melhor é caracterizar o “eclipse” como um trânsito, pois tudo o que se pode ver é um pequeno ponto negro cruzando o disco solar. O rover Perseverance registrou um deles, em 19 de Janeiro de 2024. O evento todo durou apenas dois minutos. Veja a figura 3.

A importância científica desses fenômenos reside em que, a partir de cronometragens precisas, é possível deduzir informações sobre como as órbitas daqueles satélites mudam com o passar do tempo, devido à interações de maré com Marte, além de fornecer indícios sobre a estrutura interna do planeta vermelho.

Fig. 2 – Eclipse anular do Sol causado por Phobos, visto desde a superfície do planeta vermelho em 26 de Março de 2019, registrado pelo rover Curiosity. Crédito da imagem: NASA/JPL.

Fig. 3 –  Trânsito de Deimos defronte ao Sol em 19 de Janeiro de 2024. Crédito da imagem: NASA/JPL.

Trânsitos Múltiplos

A obra Quarter Million Year Canon of Solar System Transits (Walker, 2004, disponível na Internet, de domínio público) lista trânsitos vistos desde qualquer dos planetas do sistema solar entre 125000 a.C. e 125000 d.C.).

De forma semelhante ao caso da Terra, trânsitos simultâneos de dois ou três planetas vistos de Marte são bastante raros.

Na Terra, só podemos ter trânsitos simples (Mercúrio ou Vênus), e trânsitos duplos, ou “binários” (Mercúrio e Vênus). Em Marte, podemos ter trânsitos simples (Mercúrio ou Vênus), duplos (Mercúrio e Vênus), triplos ou “trinários” (Mercúrio e Terra + Lua ou Vênus e Terra + Lua), até mesmo quádruplos (Mercúrio + Vênus + Terra + Lua)!

Trânsitos duplos de Mercúrio e Vênus vão acontecer em 8 de Outubro de 18713, 9 de Agosto de 19536, e 21 de Maio de 20029! Até agora, o último trânsito triplo de Mercúrio mais Terra-Lua aconteceu em 55962 a.C. O fenômeno não voltará a repetir-se dentro dos próximos 125 mil anos. Dentro do mesmo período de tempo, não vai acontecer nenhum trânsito quádruplo. Um trânsito triplo (Vênus e Terra + Lua) só terá lugar em 571741 A.D.!!! Dá para tomar um cafezinho antes…

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* Luiz Augusto L. da Silva é astrônomo, e  desde 1973 mantém um olho no céu e outro na Terra, sem se esquecer de Marte.

20260828