Opinião

COTIDIANO BAIXO NÍVEL

Luiz Augusto L. da Silva *

“Não se devem fazer perguntas. Não pensem. Comprem.”
“… também os cientistas mentem por dinheiro.”
Carl Sagan (1935 ― 1996)
O Mundo Assombrado pelos Demônios (1995).

Todos com pressa. Cada um por si. Ninguém por todos. Perseguindo
um modelo ilusório de felicidade, talhado e vendido por influencers e
viralizações banais em redes sociais. Propagandas imbecis martelando
incessantes as mentes desmioladas dos “consumidores”. Cassinos virtuais
e festivais de oportunidades mirabolantes com “ofertas imperdíveis e
muito mais”. Rápido, para não perder! Assim vive a imensa maioria dos
“sapiens” modernos. Em meio à crise ambiental e ao aquecimento global.
Entre El Niños e La Niñas. Enchentes e estiagens. Guerras, fome, miséria,
desigualdades sociais, neuroses e fobias, fundamentalismos e polarizações
políticas, ostentações, modismos e tabus, temperados por devoções
religiosas profundas, originárias da necessidade do ser humano inventar e
acreditar em um Macho Alfa superior quando convive em grupo com seus
demais semelhantes.

Seguindo sua “inclinação animal egoísta”, como qualifica o filósofo
francês Dany-Robert Dufour (1947 ― ) em A Existência de Deus
Comprovada por um Filósofo Ateu (2016, Editora Civilização Brasileira, Rio
de Janeiro), e como ressalta muito bem Patricia Fara (1948 ― ) em
Uma Breve História da Ciência (2014, Editora Fundamento Educacional,
Curitiba), os verdadeiros motivos dos “sapiens” empreendedores sempre
foram torpes. Quando surgiu, a burguesia optou pelo negócio. À diferença
dos nobres dominantes, que prezavam o ócio. Ambos conceitos
detestáveis.

A ciência experimental não nasceu do desejo sincero pela busca do
conhecimento, e sim da política e do comércio. Os grandes viajantes
internacionais estavam mais interessados em conquistar poder territorial
e lucros financeiros, e menos em um aprimoramento intelectual. Os que
fabricavam instrumentos desejavam ganhar dinheiro, em lugar de decifrar
os segredos incógnitos do mundo natural. As explorações internacionais
sempre estiveram ligadas aos memes do lucro e da posse. Os ricos se
preocupavam majoritariamente em enriquecer suas residências com
símbolos artísticos, relegando ao segundo plano seu próprio
enriquecimento cultural.

Ainda hoje, por exemplo, quando um novo produto ― até mesmo
um medicamento ― é desenvolvido, em geral não o é porque alguém está
genuinamente preocupado com o bem estar da humanidade, ou do
planeta no qual reside. O verdadeiro objetivo por trás da esmagadora
maioria das invenções humanas é oportunizar ganhos financeiros. Tudo
deve acabar em dinheiro. Ou acabar, se não houver dinheiro.

Este tipo de comportamento ilustra muito bem toda a falta de
educação, além do baixíssimo nível de desenvolvimento ético-moral que
caracteriza a espécie humana, em sua maioria. Cristãos, muçulmanos,
espíritas ou batuqueiros, religiosos de todos os credos ― até os ateus ―
não se diferenciam na hora de correr atrás de uma coisa chamada
dinheiro. Trata-se de uma postura totalmente irracional, denunciadora de
primitivismo extremo.

Deveríamos abolir por completo conceitos como lucro, comércio,
dinheiro, as “leis” de um jogo chamado Economia, dívidas, juros, multas,
emolumentos, impostos, e a veneração por metais e rochas ditos
“preciosos”, além dos verbos comprar e vender, e comportamentos
insanos como consumismo contumaz, e toda a sorte de preconceitos. E
banir de uma vez por todas o regime e a mentalidade capitalistas.

Não matar, nem desmatar: replantar. Chega de combustíveis
fósseis. Transição energética efetiva já. Não às guerras. Não à exploração
de um pelo outro. Não se alimentar mais de animais. Respeitar e tratar
bem a todos eles, considerando-os como seres que também possuem

sentimentos, que também sentem dor, e que têm o direito de viver suas
vidas de forma digna. Assim como nós, animais “humanos”.

Não ao misticismo. Não ao territorialismo. Não ao culto patriótico,
quer seja fanático, ou moderado. Não às fronteiras ― geográficas e de
pensamento ―. Conforto e bem estar para todos, mas luxo não. Nem
luxo, nem lixo. Nem ricos, nem pobres: todos iguais.

Priorizar a educação, a saúde, a paz, e a conservação da natureza. O
meio ambiente em primeiríssimo lugar. Solidariedade e fraternidade
também. Idem pensamento crítico, e cético. Tudo ao alcance de todos,
com qualidade, sem custo, sem excessos nem frivolidades. Desenvolver e
aprimorar. Aprender. Ensinar. Dar, e receber. Trabalhar. Estudar.
Entender que a sobrevivência é o mais importante.

Percebem como vivemos distantes de tudo isso? A conjunção do
atraso ético-moral com nosso desenvolvimento científico-tecnológico
relativamente elevado não indica boas perspectivas de longevidade
coletiva. Ao contrário, infelizmente sinaliza um colapso social iminente e
abrangente. Mesmo se tivéssemos vontade de mudar, necessitaríamos de
tempo. E o tempo já se esgotou. Permanecerá viva a esperança?

Discurso surrado. Nada de novo sob o Sol. “Busquem o
conhecimento!”― já dizia o ET Bilú.


  • Astrônomo, presidente do conselho curador da Rede Omega Centauri
    para o Aprimoramento da Educação Científica.
    www.luizaugustoldasilva.com
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    www.redeomegacentauri.org
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